Opinião: Ricardo Santos

6 Abril, 2017

Hoje damos inicio a uma série de artigos de opinião dos principais intervenientes no sector da cerveja artesanal em Portugal. Iniciamos com Ricardo Santos, o cervejeiro e mentor da cerveja artesanal D’os Diabos, sediada em Amarante.

Introdução

Fill with mingled cream and amber,
I will drain that glass again.
Such hilarious visions clamber
Through the chamber of my brain

Quaintest thoughts — queerest fancies
Come to life and fade away;
What care I how time advances?
I am drinking ale today.

  1. Allan Poe – Lines on Ale 1848

Será certamente irrefutável que a cerveja já tenha ajudado na inspiração de muitos artistas, autores, performers, designers, etc. É possível que a arte ou o pensamento artístico possam dar origem a uma cerveja? Na minha opinião sim. Atribuir o estatuto de obra de arte a uma cerveja será no mínimo controverso, contudo acredito profundamente que o pensamento artístico e criativo pode e deve fazer parte do processo de criação e elaboração de uma cerveja. Da mesma maneira que um músico tenta provocar emoções e estados de espírito ao ouvinte também o cervejeiro pode usar a cerveja como um veículo de comunicação de sensações. Desde sentimentos mais básicos como a atracção ou a repulsa aos mais profundos e intimistas, a cerveja tem o poder de ir ao nosso interior através dos sentidos. Um cervejeiro pode ter um produto tecnicamente perfeito, sem falhas ou defeitos, mas só atingirá a mestria quando for capaz de influenciar o consumidor intimamente.

Na nossa cervejaria ou atelier (como lhe gostamos de chamar) trabalhamos segundo e seguindo o objectivo de conceptualizar a cerveja. Primeiro pensamos no que queremos transmitir antes de avançar com a elaboração. Contudo nunca nos esquecemos do experimentalismo ou mesmo da abstracção e do quebrar das regras. A arte também vive muito disso e sem eles corremos o risco de estagnação.

Sobre o estado actual da cerveja artesanal em Portugal

Questão sempre interessante que vou dividir em duas partes,  a do mercado e a do produto.

A nível do mercado penso que é visível a expansão do entusiasmo por parte do consumidor. Basta ver o interesse quer das grandes marcas cervejeiras quer das cadeias de grande distribuição pela cerveja artesanal, as casas dedicadas à cerveja aumentou bastante e está a chegar também a lugares mais comuns como simples restaurantes, bares e cafés.  Contudo a demografia e o poder de compra do país também se reflecte no mercado da cerveja artesanal. Creio que de momento ele vive muito às custas dos grandes centros urbanos do litoral onde o poder de compra é maior sendo o interior e as cidades pequenas mercados muito difíceis de se trabalhar. Depois existe a questão do número de produtores onde creio que se exagera muito. Recentemente ouvi falar em 80, penso que não seremos tantos e ainda assim a grande maioria são a uma escala de homebrew e muito local. Nada contra, bem pelo contrário.

Quanto ao produto, recentemente ouvi o Francisco da Cerveja Letra a dizer que há 3 ou 4 anos quando se ia a um festival de cerveja apareciam algumas coisas boas, outras medianas e outras más, e que no evento onde estávamos só por azar se encontraria uma torneira com cerveja de fraca qualidade. Estou de acordo, o salto qualitativo foi enorme para quase todos. Mas também não me posso esquecer das inúmeras amostras que me deram a provar, apenas nos últimos anos, de completos falhanços a vários níveis. Problemas existem para todos, dos maiores e mais profissionais aos mais pequenos, mas o que me preocupa é quando alguém oferece um produto cheio de problemas para prova ou o põem no mercado, ao ouvir as criticas, vai sempre achar que a tua boca é que está estragada.

Resumindo, apesar de ainda estarmos de uma maneira geral a sofrer de dores de parto a criança está a crescer bem e saudável.

Perspectivas para o futuro

Ainda existe muito por fazer e muito por explorar quer a nível de mercado quer a nível de produto e produtores. Mas creio que o que falta fazer só poderá trazer melhorias ao sector em geral. Por exemplo, ao nível do produto começa a ser difícil aparecer no mercado com algo banal ou medíocre, a fasquia, ainda que não estando a um nível olímpico, já se encontra a um nível profissional e isso é bom para todos pois obriga os produtores a superarem-se e aumenta a exigência do consumidor. A profissionalização do sector ainda é relativa mas em crescendo assim como a integração nas produtoras de gente qualificada, com formação especifica, e essa tendência vai certamente aumentar.

Quem é que imaginava há um par de anos, que hoje teríamos na capital um brewpub apenas com cerveja nacional e quantos mais locais existirão no futuro?

– Ricardo Santos, cervejeiro da 2C – Arte Cervejeira, Lda.



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