Aquisições, Escolhas e Opiniões

12 Fevereiro, 2015

Eu sou um apreciador convicto de cerveja artesanal mas, acima de tudo, considero-me medianamente sensato. Com isto quero dizer que tento não me levar por modas e tendências, e que a discussão seguinte resulta das minhas opiniões, mas opiniões informadas.

Eu defendo as cervejas artesanais, mas não ataco cegamente as cervejas industriais. As cervejas industriais tem muitos defeitos, mas as grandes companhias são extremamente eficientes a produzir, de forma consistente, um determinado estilo de cerveja. Não é à toa que a Super Bock consegue notas tão altas quando é avaliada segundo o respectivo estilo BJCP, é muito bem feita segundo aquelas normas. Por contra ponto, já tive o desprazer de tomar cerveja artesanal muito má, com grandes defeitos que até um leigo como eu foi capaz de identificar. O mundo não é a preto e branco e, especialmente no mundo cervejeiro, há demasiados tons de cinzento.

Esta introdução serviu, espero, para se perceber onde eu me situa nesta batalha “artesanal vs industrial”, e ser mais fácil entender as minhas opiniões na matérias que se segue.

Recentemente, a AB InBev, casa-mãe da AmBev e da Anheuser-Busch, adquiriu várias cervejeiras artesanais nos EUA (ver AQUI), e no Brasil também (ver AQUI). Eu gostaria de avaliar os possíveis pontos positivos e negativos.

Tenho a certeza que todos já ouviram os pontos positivos destas “parcerias”:

– Acesso a mais e melhores ingredientes, e melhor formação dos trabalhadores;

– Acesso a novos mercados, redes de distribuição e maior difusão da marca;

– Anunciada independência de gestão e licença criativa;

–  Melhores cervejas, disponíveis em mais locais, e a melhores preços.

Tenho a certeza que se podem encontrar mais algumas com uma análise mais profunda, mas penso que estas resumem de forma bastante completa o lado positivo.

Analisemos agora o lado negativo. As razões aqui apresentadas, ao contrária das tão difundidas vantagens, são apenas “teorias da conspiração” da minha autoria, congeminadas na companhia de uma boa cerveja. Depois da tomada de posição que foi o anúncio da Budweiser no Super Bowl, 8-9 milhões de doláres não são gastos sem autorização do topo da hierarquia, parece-me razoável assumir que a AB InBev não quer fazer chegar a cerveja artesanal às multidões.

Cerveja artesanal gasta mais ingredientes, ingredientes mais caros e difíceis de conseguir e acima de tudo não é eficiente o suficiente para os padrões da indústria. A AB InBev não chegou ao topo da indústria a maturar cerveja por anos em barris de madeira, ou adicionar frutas exóticas na fermentação secundária. A utilização de milho e arroz não é por propriedades de sabor, claridade ou afins, é porque são mais baratos que a cevada e o malte de cevada. Dinheiro, lucro… São essas as palavras que guiam a indústria, e o anúncio da Budweiser deixou claro que eles querem que as coisas continuem assim. Então porquê comprar várias cervejarias promissoras? Porquê adquirir nestes dias a melhor cervejaria da América Latina, com várias cervejas com prémios mundiais?

A minha opinião, apoiada em muitas leituras e opiniões de outros, é que eles querem evitar males maiores. Não para entrar no mercado das artesanais, mas para impedir que surjam novas Sam Adams, Sierra Nevada ou Lagunitas. Querem impedir que novas cervejarias promissoras cresçam ao ponto de lhes roubar quotas significativas de mercado. Comprando várias empresas eles conseguem várias coisas, melhoram a imagem deles com as massas, geram lucros com a entrada no novo mercado, mas acima de tudo ganham controlo sobre possíveis problemas futuros. O que impede a AB InBev de encerrar as empresas que comprou agora daqui a 4-5 anos? Nada, a não ser possíveis clausulas contratuais, mas a gestão é deles.

A AB InBev quer proteger o Status Quo, eles querem que tudo que poder ser mantido igual, seja mantido igual. E a forma que eles arranjaram de controlar parte do mercado que os ameaçava é comprar potenciais inimigos, antes que tenham tamanho para serem ameaças.

Tenho a certeza que vários dos cervejeiros que venderam tem noção destas coisas mas, que depois de muita ponderação, acharam que os pontos positivos suplantavam estes pontos negativos.

Deixo-vos com a minha pequena “teoria”. Digam o que pensam nos comentários.

Ein Prosit

NOTA: Este texto não foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico por opção do autor.



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